Sarah teria coragem de trair a própria irmã?
“Você ainda vai ser minha!" As palavras de Garrett coavam no ouvido de Sarah como uma ameaça, uma maldição.
Por mais que o amasse, não conseguia esquecer que fora ele o causador da infelicidade de sua família. E, embora dez longos anos tivessem se passado desde a última vez que o vira, as lembranças ainda estavam muito vivas em sua mente. Ela teria coragem de abandonar tudo e entregar-se ao homem que um dia fora seu cunhado?
Capítulo Um
— Mamãe!
Jason Kingham deixou a palavra escapar dos lábios, antes que se desse conta da própria surpresa.
Uma mulher morena, de longos cabelos negros cacheados, virou-se, descansando o pincel no cavalete e encarando-o com um brilho estranho nos profundos olhos castanhos.
Sua silhueta esguia, as pernas longas e bem torneadas, reveladas pelo minúsculo short, e a pele de bronze acetinada pareciam fazer um conjunto perfeito com o mar de um verde intenso e o céu muito azul, sem nuvens, que se refletia na tela semi-acabada.
Sem jeito, Jason murmurou um tímido pedido de desculpas. Depois, recobrando o controle, percebeu que ela continuava a encará-lo em silêncio como se tivesse visto um fantasma.
Sarah Harvey engoliu em seco. Aquele olhar... Ela só tinha visto aqueles olhos cor de esmeralda num homem: Garrett Kingham. E o calor que percorrera seu corpo quando o fitava ainda a perseguia, mesmo depois de dez anos. Sarah procurou pensar racionalmente; alto, pele bronzeada, cabelos longos e loiros, e aqueles olhos... era Jason, filho de sua irmã!
— Jason? — ela começou, hesitante, quase sem conseguir acreditar que seu sobrinho estivesse ali depois de tantos anos de separação.
— Você... Você sabe meu nome! Então deve ser minha tia Sarah! — ele concluiu, entre contente e aliviado. — Puxa! Por um momento pensei estar diante de minha mãe... Ou melhor, do fantasma dela — acrescentou, aproximando-se com timidez para dar um abraço na tia.
— Jason! Mas é você mesmo? — dizia Sarah enquanto o abraçava e beijava, com os olhos cheios de lágrimas. — Seu avô vai ficar muito contente em vê-lo. Quando chegou?
— Agora mesmo. Fui até o chalé, mas não havia ninguém.
— Se tivesse nos avisado, teríamos ido buscá-lo na rodoviária.
— Quis fazer uma surpresa, tia.
— E seu pai sabe que você está aqui?
Jason fez que não ouviu a pergunta. Deu alguns passos para a frente a fim de olhar as ondas que estouravam na praia da pequena cidade.
— Dá para praticar surf aqui?
— Não, não dá. Mas muitas pessoas fazem windsurf.
— É, o vento é forte. Sempre venta desse jeito?
— Sim. A costa da Inglaterra é famosa por esse motivo.
Começando a recolher seu material de pintura, Sarah sentia-se intrigada com o modo de agir do sobrinho. O motivo de sua vinda à Inglaterra deveria ser muito importante, já que desde a morte de Amanda a família Kingham nunca havia procurado entrar em contato com ela e o pai.
— Seu pai sabe que você está aqui? Insistiu Sarah determinada a descobrir a verdade.
— Não sou mais uma criança. Já estou bastante crescido para tomar minhas próprias decisões — argumentou Jason, teimoso, sem nada esclarecer.
Sentindo que o rapaz estava inseguro, o primeiro instinto de Sarah foi o de abraçá-lo e pedir que lhe contasse o que o estava incomodando; porém sabia que ainda era muito cedo para esse tipo de intimidade. Procurando ganhar a confiança de Jason, ela decidiu agir com calma:
— Você pode carregar isto para mim? — perguntou tranquila, dando-lhe o quadro. — E tenha cuidado, não está seco.
— Ei, isto está muito bom!


