
Vestida para matar...
No passado, Alllson Dean mal podia esperar para ir embora da cidadezinha que a fizera se sentir sem valor e desprezada.
Agora, oito anos depois, e totalmente mudada, ela volta a
Tempest a fim de procurar uma locação ideal para um filme.
É a oportunidade perfeita para perpetrar a vingança com a qual ela sonha desde que saiu dali, e vem a calhar para os seus planos que o rapaz que partiu seu coração também esteja de volta...
Duncan Henry não costuma ser ignorado, embora a loira deslumbrante que acabou de desprezá-lo pareça fazer isso com todo mundo.
Ele, porém, está determinado a vencer a resistência daquela mulher, nem que seja para se aproximar de alguém que não tem ligação com Tempest.
A verdade é que ele nunca mais teve com quem conversar, desde que Allison, seu verdadeiro amor foi embora sem lhe dar explicações...
E agora, com Allison pronta para atacar, e Duncan decidido a vencer, a pergunta é: qual dos dois será o primeiro a ceder?
Capítulo Um
Dizem que a vingança é um prato que se come frio.
Mas Allie Dean, que sabia o que uma boa refeição podia fazer por uma garota, decidiu que o comeria quente, frio ou à moda.
Em pé, à margem da estrada estadual 89, segurando uma pedra redonda e lisa na palma da mão, ela se preparou para perpetrar um pequeno e delicioso atentado a um bem da cidade.
Leu a placa diante de si: Bem-vindo a Tempest, Indiana. Sob a frase, uma nota em vermelho:
Tempest, A Capital das Caixas de Areia.
Não era muito como reivindicação para a fama, mas Tempest tinha aceitado o presente da Companhia de Caixas de Areia para gatos Kitty Kleen, como aceitaria qualquer coisa que pudesse trazer à cidade um pouco mais de desenvolvimento e dinheiro de impostos.
Dez anos antes, o título tinha a ver com pneus.
A fábrica fora comprada por John Henry, que a havia levado à falência e depois vendera o prédio.
No processo, Henry transformara Tempest em motivo de riso, e sua derrocada fora fartamente discutida nos principais jornais.
Na ocasião, Allie deixara Tempest com a expressa intenção de nunca mais retornar.
Quem diria que ela acabaria voltando? Havia mudado de idéia ao pensar na cidade para a locação do último filme de terror da companhia cinematográfica onde trabalhava. A produção teria um enredo pobre, um orçamento magro, e ela precisaria conseguir vários figurantes.
Não era algo que pudesse concorrer ao Oscar, mas Allie pretendia usar a oportunidade para ser promovida.
E, melhor do que tudo, após sofrer ali durante dez anos, tinha várias pessoas em mente para usar como vítimas... Olhando para a placa, e com um intenso sentimento de vingança fervendo na cabeça, apertou a pedra na palma da mão.
A sombra da placa encobria-lhe os saltos dos sapatos Prada enfiados na lama.
Mesmo vestida dos pés à cabeça com roupas de grife, sentia-se outra vez a antiga Allison.
Tempest. Como tinha odiado aquele lugar!
Aos dezesseis anos de idade, e pesando quase cem quilos, era parte de uma categoria inaceitável para os padrões vigentes.
Na verdade, parecia um pequeno sofá.
Os colegas da escola a consideravam como um objeto de tortura e a usavam para fazer todo tipo de brincadeiras. Ou, pior, ignoravam-na por completo.
Contraindo a mandíbula, Allie tentou afastar as recordações. Não conseguiu.
Os anos haviam passado, mas as lembranças ainda a feriam.
Fora invisível, solitária e completamente incapaz de transformar seu mundo.
Com um longo e trêmulo suspiro, lembrou-se de que não era mais Allison Gray.
Era Allie Dean, ao menos nos dias seguintes, até que seu divórcio fosse concluído.
E não era mais um ser invisível. Ninguém poderia magoá-la outra vez.
Atirou a pedra com toda a força, e esta bateu na letra "e" da palavra "Bem-vindo".
A pedrada fora para as animadoras de torcida que se sentavam à mesa próxima à dela no refeitório.
Elas riam de seu prato limpo e do copo de leite vazio. Tanto que no terceiro ano colegial, deixara de almoçar e encontrara um canto na escada para comer seu lanche e tomar seu refrigerante.
Curvou-se, pegou outra pedra e a jogou.
Atirou, então, uma terceira, uma quarta e uma quinta. Atirou tantas que perdeu a conta, e as marcas na placa se multiplicaram.
Com lágrimas nos olhos, ela reviu os rostos das pessoas que odiava e ouviu as risadas diante de seu esforço para subir a escada.
As lágrimas desceram por seu rosto quando se lembrou dos apelidos que lhe davam e dos olhares de desdém e aversão. Pegou mais uma pedra.
— Ei! O que a placa fez para você?!
Allie virou-se, pronta para acertar a pessoa que a interrompera se necessário.
Até ver de quem se tratava.
Droga! Duncan Henry!
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