
Uma espessa neblina cobria as ruas de cinza, ocultando perigos, fazendo Carla tremer de medo, o coração batendo forte no peito.
Não havia dúvida: alguém a seguia em meio à névoa, certamente o assassino que a iria punir por ter delatado um homem poderoso.
Não adiantara disfarçar-se e trocar de nome; ele a encontrara!
Desesperada, Carla apressou o passo, ouvindo ainda atrás de s' a respiração ofegante de seu perseguidor.
E chegou a seu prédio quase sem sentir, para encontrar ali um desconhecido que a amparou nos braços.
Oferecia-lhe proteção ou... morte?
A luta de uma mulher para recuperar sua identidade, seu direito de amar
Capítulo Um
lentamente, pronta a engolir o infeliz transeunte na primeira esquina. Carla Quinn arrepiou-se, quando uma lufada de vento, mais fria do que gelo, atingiu-a.
Ergueu a gola do casaco e ajeitou a alça da bolsa no ombro, sem diminuir o passo. Caminhava depressa, com a cabeça inclinada para a frente e as mãos escondidas nos bolsos.
Em dias como aquele, sentia-se a salvo somente entre as quatro paredes de sua casa.
O eco de seus saltos na calçada lembrou-a de que havia esquecido de mudar de sapatos, antes de deixar a escola. Lamentou o esquecimento.
Trabalhara até mais tarde e era sexta-feira.
Quando saíra da biblioteca, seu único objetivo era chegar logo em casa.
Casa. Sorriu levemente.
Dobrou a esquina da Brattle e atravessou a rua ainda sorrindo.
Na calçada oposta, confundiu-se com a multidão que saía do cinema.
"Estranho como a mente pode adaptar-se com tanta facilidade a situações novas", ia pensando.
Sua vida havia sido inacreditavelmente diferente um ano atrás.
Agora, Cambridge era seu lar e ela era Carla Johnson Quinn.
Comportava-se, vestia-se e estava começando a sonhar como Carla Quinn.
Talvez "eles" estivessem certos. Com o tempo era bem possível que acabasse por se ajustar à sua nova identidade.
Olhou com uma ponta de inveja os carros que formavam uma fila imensa de reflexos brilhantes na direção da Harvard Square.
Aonde iriam seus ocupantes? Jantar no Ahmed's ou na Taverna Grendle?
Tomar uma cerveja no Wursthaus ou assistir a um espetáculo em Boston?
Um carro buzinou.
Carla ficou rígida e, pelo espaço de um segundo, tudo girou em torno dela. Virou rapidamente a cabeça.
Ao deparar com os rostos sorridentes de alguns alunos que lhe acenavam alegremente, seu alívio foi imediato.
Esboçou um sorriso e retribuiu o aceno.
Os rapazes haviam acabado de chegar de uma partida vitoriosa com o time rival. Falara rapidamente com eles, antes de sair da escola.
Quando o carro desapareceu de vista, engolido pelo tráfego intenso, controlou as batidas descompassadas de seu coração.
Podia, sim, ajustar-se a uma nova vida, a uma nova identidade.
Mas duvidava seriamente que pudesse esquecer o sobressalto constante, o eterno cuidado.
Especialmente nessa época do ano, quando os dias eram mais curtos e o crepúsculo chegava mais cedo.
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