Liann ergueu o rosto, deixando que os últimos raios do sol a acariciassem,
enquanto a velha feiticeira entoava o cântico ritual de seus ancestrais, saldando o pássaro dourado, eterno guardião do povo havaiano. Não era apenas uma lenda, pensou Liann, estremecendo.
A magia estava viva, o poder guardado em segredo por gerações continuava presente em suas mãos... Como explicar isso a Cody, o cético e intransigente Cody?
Amavam-se com loucura, mas séculos de cultura os separavam. Ele nunca concordaria em permanecer a seu lado no Havaí e ela jamais poderia abandonar aquela terra onde nascera...
Capítulo Um
Liann Murphy ergueu a cabeça, intrigada com o silêncio abrupto. Aguardou alguns instantes, esperando ouvir novamente o ruído familiar das máquinas e dos homens trabalhando, mas, como nada aconteceu, afastou-se da escrivaninha e foi até a janela do trailer, que vinha servindo de escritório.
Através do vidro, observou a área cercada de arame, cheia de equipamentos pesados que perfuravam o chão para estaquear o terreno, e seus olhos encontraram a figura alta e máscula, parada no centro do pátio com as mãos fortes nos quadris.
Como ele podia ser tão teimoso!
Cody Hunter era um homem muito bonito, admitiu com relutância. Com mais de um metro e oitenta, músculos fortes e flexíveis, atraía a atenção de qualquer mulher. Só que era obstinado, e tão cabeça-dura quanto a velha Tutu Nini, quando queria proteger seus passarinhos.
Assim que o trabalho começara, três semanas antes, Liann podia ter lhe dito que toda a experiência acumulada no continente não era suficiente para torná-lo capaz de construir qualquer obra na ilha.
Mas ele não havia demonstrado o menor interesse. Além disso, Liann sabia há muito tempo que a maioria dos forasteiros não acreditava e até achava graça nas superstições e crendices do povo daquela região.
No entanto, no Havaí as superstições e lendas eram le vadas a sério e todos acreditavam nelas.
E aí começavam os problemas.
Liann olhou outra vez para o homem que seria seu parceiro no trabalho durante os próximos meses. Ele era sexy, concedeu, pensativa. A aura de sensualidade à sua volta era tão intensa, que mesmo àquela distância podia perceber o magnetismo que Cody emanava.
Desde sua chegada na ilha, após vencer a concorrência para construir um enorme edifício, que abrigaria o centro cultural, anexo ao Instituto Cultural Havaiano, vinha despertando o interesse das jovens do local, mesmo sem fazer qualquer esforço para isso.
Observando as costas musculosas e o gesto de cabeça que revelava irritação, Liann suspirou e gemeu baixinho:
— Por que logo eu?
Mas a resposta era evidente. Como historiadora do Instituto Cultural Havaiano havia sido indicada para ajudá-lo, servindo tanto de intérprete quanto de intermediária no contato com os trabalhadores e habitantes da região.
E já que o centro era um velho sonho que desejava ver realizado, Liann estava decidida a enfrentar tudo para vê-lo funcionando. Mesmo que para isso precisasse ensinar a Cody os mistérios do Havaí.
Só que a tarefa não seria fácil. Como dissera a seus inúmeros parentes, não era uma questão de competência.
A empresa de Cody possuía uma sólida reputação no ramo de construções e erguera uma rede de hotéis de primeira linha no continente. Na verdade, o principal motivo que o levara a se mudar de Boston era um projeto para construção de diversos hotéis na costa de Waikiki.

