A discreta e recatada Nell McCabe não podia acreditar que se tornara a sedutora apresentadora de um provocante programa de rádio chamado Zona Quente.
Estava disposta a quase tudo para salvar a emissora, mas organizar uma grandiosa festa de dia dos namorados do ano 2000?
Formar casais entre os ouvintes que ligavam para o programa, e no ar?
Pois bem, aceitaria a missão...
Capítulo Um
Julho 1999— Malditos irmãos Jones! — Nell McCabe, conhecida em toda a cidade de Chicago como a calma e inabalável apresentadora do programa matinal de aconselhamento chamado Fale com Nell, amassou o memorando do departamento de marketing, jogou-o no chão e pisoteou-o.
Amy, sua produtora, parou na porta.
— Escolhi um mau momento?
— Todos os momentos são péssimos desde que eles compraram a estação. E está piorando.
Com um grito abafado de desânimo, Amy recolheu o papel do chão.
— Oh, não! Eles também nos demitiram?
Enquanto ela tentava desamassar a folha para ler a mensagem, Nell começou a andar de um lado para o outro.
— Seria melhor se eles nos mandassem embora de uma vez por todas — resmungou. — Querem elevar minha audiência. Gosto do meu público exatamente como é! Por outro lado, concordei com as ideias estúpidas daqueles patetas, não? Disseram que minha imagem era séria demais, e eu me submeti a novas sessões de fotos. Fotos! Que importância tem isso? Trabalho no rádio! Minha aparência não conta! Mas eles disseram que seria bom para a divulgação do programa, e por isso concordei. Mas isso foi antes de perceber que seria pega de surpresa por toneladas de maquiagem, meia dúzia de cabeleireiros e aquele vestido horrível. Só Deus sabe como vou aparecer naqueles retratos. Ridícula, certamente!
Amy levantou uma sobrancelha.
— Nell, a ideia sobre as fotos foi de Drake Witley, o novo diretor de marketing. E este memorando também foi assinado por ele. Não entendo por que acusa os irmãos Jones. Além do mais, o documento só solicita sua presença em uma reunião. O que há de tão horrível nisso?
— Os irmãos Jones contrataram Drake, a Cobra! E recebi o memorando as duas e vinte e cinco, apesar de a reunião ter sido marcada para as duas da tarde. Estou meia hora atrasada antes mesmo de tomar conhecimento do evento. Sei reconhecer uma armadilha. Eles vão esperar por mim e despejar um novo esquema sobre minha cabeça assim que eu passar pela porta. Estarei atrasada; confusa e incapaz de argumentar. Trata-se de uma manobra suja e desleal pela qual os Jones são famosos!
— Nell, está começando a ficar paranoica!
Ela balançou a cabeça. Como apresentadora do Fale com Nell, dava conselhos a todos os ouvintes que telefonavam pedindo ajuda para solucionar um confuso caso de amor. Seu trabalho consistia em ouvir os problemas alheios e se manter calma e solidária diante do sofrimento e da histeria. "Fale com Nell", dizia o lema do programa. "Juntos venceremos alguns percalços da acidentada estrada do amor".
Mas em poucas semanas havia perdido a calma, o controle e o equilíbrio. Sentia-se prestes a esmurrar o primeiro nariz que surgisse em sua frente. E adoraria agredir um dos sofisticados, empreendedores e mulherengos piratas que haviam comprado à estação de rádio. Os Garotos Jones.
— Pelo que sabemos — Amy continuou com tom sensato, os Garotos Jones nem estão na cidade. Nunca os vi. E você? Hoje em Paris, amanhã no Rio... Acha que eles têm tempo para vir a Chicago brincar com á boa e velha W109?
— Alguém esteve brincando com ela, isso é óbvio. Minuto Marvin da Meteorologia... Fora do ar! — Nell lamentou. — E por quê? Para dar espaço á uma hora inteira de Fofocas Cintilantes. Arghhh! Paddy Cherlihy e seu Hora Gaulesa se foram. Em seu lugar temos As Mais Horrendas Lendas Urbanas do Mundo. Agora sou arrastada para uma reunião para... — Parou e recordou as palavras do memorando. — Para discutir maneiras de tornar meu programa mais quente e dinâmico. É insano.
— Nell, é só uma reunião. E você nem sabe o que vão dizer.
— Sei que Fale com Nell não é quente ou dinâmico, e gosto da atual estrutura do programa.
Adorava o que fazia; pelo menos até os irmãos Jones aparecerem. Sempre tivera a sensação de estar desempenhando uma função de utilidade pública. Todos precisavam de alguém que ouvisse seus problemas. Até mesmo as pessoas mais quentes e dinâmicas sentiam falta de alguém que...
Amy empurrou-a para a porta.
— Vá de uma vez e ouça o que eles têm a dizer. Talvez seja apenas um novo e divertido pacote promocional de verão, algo que possa apreciar de verdade. Veja pelo lado positivo: ao contrário de Marvin e Paddy O'Herlihy, não fomos tiradas do ar. Quero dizer, se estão dispostos a gastar dinheiro para tornar o programa mais quente e dinâmico, é porque não pretendem encerrá-lo, certo?
— Espero que não. — O que faria sem o Fale com Nell? Dava conselhos no ar desde os vinte anos, quando criara seu primeiro programa na rádio da faculdade. E deixara a escola no segundo ano para levar o programa a Chicago.
Portanto, não estava qualificada para fazer outra coisa.
Não queria nem pensar na possibilidade de ter de procurar outro emprego aos vinte e sete anos de idade. Mas e se o departamento de marketing houvesse planejado uma nova estratégia, algo ainda pior do que as fotos, e não tivesse o direito de recusá-la? O que faria? Até que ponto poderia comprometer seus princípios?
Gostaria de ter mais tempo para pensar no assunto. Mas ouvia vozes no interior da sala de reuniões, e elas soavam impacientes.
— Onde está aquela mulher?






