Julie é uma menina que perdeu os pais e vivia num orfanato até que uma família decide adotá-la.
Porém ela acredita que não merece, por ser essa uma família de moldes perfeitos, coisa que Julie não acreditava ser.
Por isso, durante toda sua vida se esforçou ao máximo para ser perfeita e se encaixar entre eles. Zack nasceu entre os privilegiados, porém num momento de sua vida, sua avó decide expusá-lo de casa e se esquecer que ele existe.
Consegue seguir adiante como ator e diretor de Hollywood, mas a morte de sua mulher durante um estranho acidente durante a rodagem de um filme, o converte em um presidiário.
Decide fugir para provar sua inocência e no meio do caminho ele cruza com a doce Julie, tão diferente das falsas atrizes que ele estava acostumado.
Capítulo Um
1978
— Sou a senhora Borowski, do serviço público do Lar adotivo LaSalle — anunciou a mulher de média idade, enquanto cruzava o tapete oriental ru-mo à recepcionista, com uma bolsa de compras no braço. Assinalou à garo-ta de onze anos que ia atrás dela e esclareceu com frieza: — E esta é Julie Smith. veio para ver a doutora Theresa Wilmer. Voltarei a procurá-la quan-do terminar de fazer minhas compras.
A recepcionista sorriu à pequena.
— A doutora Wilmer estará com você em um momentinho, Julie . En-quanto isso sente-se ali e preencha este cartão. Esqueci-me de lhe dar isso a vez passada, quando veio.
Muito consciente de seus jeans desbotados e da velha jaqueta que le-vava posta, Julie olhou com expressão inquieta a elegante sala de espera onde frágeis bonequinhos de porcelana repousavam sobre uma antiga mesa e valiosas esculturas de bronze se apoiavam em pés de mármore. Separan-do-se todo o possível da mesa cheia desses objetos, Julie se encaminhou a uma cadeira junto a um enorme aquário onde exóticos peixes de cores na-davam entre ramos verdes. A suas costas, a senhora Borowski voltou a co-locar a cabeça para aconselhar a recepcionista:
— Julie é capaz de roubar algo que não esteja atarraxada. É escorrega-dia e rápida, assim será melhor que a vigie de perto.
Sufocando sua fúria e sua humilhação, Julie se deixou cair em uma ca-deira, estirou as pernas para frente em um esforço consciente de adotar a atitude de pessoa aborrecida e nada afetada pelo horrível comentário da senhora Borowski, mas as cor que tingiam suas bochechas estragaram o efeito, além de que suas pernas não chegavam ao piso.
Instantes depois trocou de postura e olhou aterrorizada o cartão que acabava de lhe entregar a recepcionista para que preenchesse. Embora sabia que não poderia escrever as palavras, não tinha mais remedeio que ten-tá-lo. Apertando os dentes, concentrou-se nas letras que apareciam no cartão. A primeira palavra começava com uma letra N como a de Não nos pôsteres de Não Estacionar que se alinhavam pela rua. Sabia o que diziam esses pôsteres porque seus amigos o haviam dito. A segunda letra era uma a como a de gato, mas a palavra não era gato. Apertou os dedos ao redor do lápis Amarelo, enquanto lutava contra a familiar sensação de frustração e de furioso desespero que a curvava cada vez que se esperava que lesse algo. Tinha aprendido a palavra gato na primeira série mas ninguém escre-via jamais essa palavra em nenhuma parte!
Enquanto observava as palavras incompreensíveis do cartão, perguntou-se com fúria por que seria que as professoras lhes ensinavam a ler palavras tolas como gato quando nin-guém escrevia jamais a palavra gato fora dos estúpidos livros da primeira.
Mas os livros não são tolos, recordou-se Julie , e as professoras tam-pouco. Outros meninos de sua idade teriam lido esse tolo cartão em um abrir e fechar de olhos. Ela era a que não podia lê-la, a tola era ela.
Mas, por outra parte, disse-se que sabia uma quantidade de coisas que os outros meninos ignoravam por completo, porque ela se obrigava a pres-tar atenção às coisas.
E tinha notado que quando entregavam a alguém al-go que devia preencher, quase sempre se supunha que teria que começar por escrever seu próprio nome...












