
Eve Coudert ousou provocar um escândalo sem precedentes ao fugir de casa para viver em pecado impenitente; conquistou o estrelato cantando no mais importante music hall de Paris; arriscou a vida no front durante a Primeira Guerra Mundial, onde conheceu o rico e charmoso visconde Paul de Lancei, com quem teve duas filhas, herdeiro de grandes vinhedos, que fez dela a grande dama da Champagne.
Freddy ousou desafiar os pais indignados e aprendeu a voar em segredo; fez vôos solos ao completar dezesseis anos; competiu, destemida, em corridas aéreas contra os maiores pilotos do final da década de 30; voou pela Inglaterra durante os anos da Segunda Guerra Mundial; construiu uma grande companhia de aviões na Califórnia; amou profundamente e perdeu com a mesma bravura com que venceu; descobriu o que havia além do horizonte.
Delphine, a outra filha de Eve e Paul, ousou levar uma vida secreta de noitadas em nightclubs e cassinos ilegais, e quando Hollywood estava em seu memorável auge fez, por puro capricho, um teste para o cinema e tornou-se, antes mesmo de completar dezoito anos, uma famosa artista de cinema; permaneceu na França ocupada durante a guerra por causa de um amor profundo pelo único homem que não pôde impressionar... nem esquecer
Essas são as três mulheres Lancei, excepcionalmente românticas, donas de uma coragem temerária, um humor invencível, corações extravagantes e um estilo extravagante. Elas não se arrependem de nada do que fazem... exceto talvez pela vintena de homens cujos corações partiram.
Capítulo Um
Eve Coudert estendeu a nota de cinco francos para o bilheteiro.
Ofereceu-lhe um sorriso indiferente, enquanto pagava pelo passeio no balão de ar quente amarrado no vasto campo de La Maladière, nos arredores de Dijon, no último dia do grande Espetáculo Aéreo de 1910.
— Está sozinha, mademoiselle? — perguntou ele, surpreso.
Era raro ver uma jovem desacompanhada, ainda mais tão atraente.
Ele contemplou-a com interesse, fazendo um levantamento rápido e perceptivo de seus charmes.
Ela fitou-o sob a aba do chapéu de palha com olhos cinzentos, bastante escuros para seduzirem o demônio, as sobrancelhas viradas para cima, inclinadas como um par de asas.
O volumoso coque revelava cabelos que tinham uma tonalidade indefinível mas
inebriante entre o vermelho e o dourado, os lábios carnudos e risonhos eram tão naturalmente rosados quanto as faces.
— Meu marido tem medo das alturas, monsieur — ela acrescentou uma insinuação delicada ao sorriso, dizendo ao bilheteiro que compreendia que ele próprio não tinha medo de altura e que o admirava por sua coragem.
Ah, pensou ele com satisfação, essa jovem esposa encantadora da província não é tão inocente quanto deveria ser; e com um olhar ansioso, mas sem qualquer outra pergunta, entregou a Eve o bilhete que dava direito a um passeio no balão.
Pegando a mão enluvada, o homem ajudou-a, galantemente a subir na gôndola de vime, parecida com uma cesta, com espaço suficiente para cinco pessoas.
Eve segurou a estreita saia branca de fustão com uma das mãos e com a outra prendeu o elegante chapéu de aba larga, ornamentado com rosas de seda.
As botinas pontudas de cordão e saltos baixos batiam nervosamente, enquanto Eve esperava pela remoção das dezenas de sacos de areia que mantinham o enorme balão vermelho no solo.
Teve o cuidado de não olhar para os outros passageiros.
Virou-lhes as costas, inclinou-se contra a beira da gôndola, na altura da cintura, comprimiu o queixo contra a gola alta, as pétalas de renda se destacando contra a pele delicada, quase escondendo o rosto.
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