Fragmentos do passado...
A cozinha da lanchonete local não era exatamente o lugar onde Alice O’Malley esperava ter de trabalhar.
Porém, o divórcio do marido infiel a deixou com a conta bancária zerada e a autoestima abalada.
Agora, Alice tem de enfrentar uma série de problemas: a hipoteca atrasada, uma filha adolescente para criar e parentes bem-intencionados porém opressivos.
E reencontrar por acaso Dakota Jones, o rapaz por quem ela foi perdidamente apaixonada no colégio, anos atrás, é apenas mais um problema para ser acrescentado à lista.
E as coisas se complicam ainda mais quando Dak desperta no coração dela uma paixão que estava apenas adormecida...
Dak é o tipo de homem que faz qualquer mulher suspirar, e embora não tenha intenção de se envolver romanticamente com ninguém, ele é obrigado a reconhecer que Alice é uma tentação grande demais para ignorar.
Todos esses sentimentos contraditórios podem ser apenas sobras do passado.
Mas há quem realize verdadeiros milagres com as sobras...
Capítulo Um
Alice O’Malley leu pela décima vez a carta entregue por Eddie. Ou seria Freddie Steeplemier? Ela nunca conseguia discriminar os gêmeos idênticos que trabalhavam na agência do correio de Cordelia.
Desolada, olhou para o emblema do banco, onde o ex-marido, Stan, era presidente.
Sabia que, sem o pagamento das hipotecas, a casa seria tomada. Fingiu ignorar o fato, porém; assim como fizera nos quatro anos desde o divórcio.
Para se manter, ela tivera de vender a maioria do mobiliário antigo que herdara como parte do acordo do divórcio e aplicara o dinheiro no mercado de ações.
Agora, a conta no banco, em que cada moeda era gasta com critério, estava chegando ao limite final.
Suas poucas economias se destinavam à filha de catorze anos, sendo que contava apenas com o suporte da pensão de Stan, o qual mal cobria as necessidades das duas.
Parada à soleira da porta, Alice olhou com desgosto para a sala de estar. Parecia um campo de futebol imenso e vazio.
Com exceção da cristaleira, herança dos pais de Stan.
Não devia ter cedido ao sentimentalismo do ex-marido quando este lhe pedira para que ela não se desfizesse da peça, pensou, irritada.
O pai dele, S.R. Addams, havia morrido num acidente de carro quando Stan tinha treze anos. A mãe, Ellen, falecera sete anos antes.
Ambos adoravam o móvel, enviado da Itália por um nobre aristocrata como presente de casamento.
Aquela cristaleira valeria uma fortuna num bom antiquário, ponderou. E, na atual circunstância, quebrar uma promessa macularia menos sua moral do que ter de pedir dinheiro aos pais.
Alice guardou a carta na bolsa, antecipando a saudade que sentiria do adorável casarão com pilares de pedra e amplas janelas pintadas de verde na fachada.
Na juventude, ela costumava ir para o topo da torre da caixa d’água, de onde se podia ver a casa. Agora, ela a possuía.
Aquela era a melhor casa de Cordelia, se não contasse a propriedade de Lil.
No verão, as roseiras subiam pelas treliças que o jardineiro havia montado dezoito anos antes, quando ela se casara. O jardineiro se fora, assim como os outros empregados.
E agora, ela estava a ponto de perder a casa, já que tivera de hipotecá-la para financiar o empréstimo no banco.
Uma música alta, vinda do andar de cima, intrometeu-se em seus pensamentos.
— Kathleen! Pelo amor de Deus, abaixe essa música!
Era impossível que a filha ouvisse. As portas do quarto eram flanqueadas por imensas urnas mexicanas das excursões que ela costumava fazer com os amigos do Country Club.
Alice suspirou. Onde estariam seus amigos agora?
Na certa com sua irmã, Lil, e o famoso cantor country, Jonathan Van Castle.
— Maldita Serena Simpson! — grunhiu, somando a irritação com a filha ao rancor pela atual esposa de Stan e ex-secretária do marido.


