
A noite tem outra face...
Bem, aquela estava pintada com maquiagem barata.
Ele desejava uma penumbra mais elegante.
Andou mais algumas quadras e sua audição aguçada percebeu o suave rumor da água.
Uma torre de relógio marcava uma hora da madrugada.
Atravessou a rua e chegou à praia do lago.
Pisando na areia, contemplou as ondas suaves e a neblina rala que pairava acima da água. No céu, a Lua brilhante escondeu-se atrás de uma nuvem negra.
Ao longe, ele contemplou Chicago, que se estendia num arco de luzes brilhantes em torno da água escura.
Saboreou aquela beleza.Se você sabe disso, me conhece...
Recordou as palavras da locutora da rádio.
A brisa agitou seu paletó. Ficou pensando na voz sensual da mulher.
Encontre-me depois do escurecer...Tentou apagar o desejo com cinismo. Em vão. Aceitaria o convite.
Capítulo Um
Era uma hora da madrugada quando Adriana Thorn livrou-se dos fones de ouvido e afastou a cadeira.
Deu um suspiro de alívio. A transmissão radiofônica terminara.
Já possuía experiência nesse meio, pois trabalhava havia alguns anos como discotecária em uma modesta estação de AM nos subúrbios.
Contudo, o fato de não poder controlar a reação de seus ouvintes causava-lhe sempre uma sensação desconcertante.
Preferia uma audiência mais tangível, como a do After Dark.
As paredes de vidro da cabine de som do clube separavam-na da multidão lá fora, mas ela podia observar a reação das pessoas a seus monólogos e mixagens, e sentir a interação com elas.
Como nunca se adaptara à vida familiar e aos esquemas diurnos, gostava de companhias noturnas.
Conferiu a pilha de Cds escolhidos para a seleção seguinte, saiu da cabine e fechou a porta. Geralmente, aos sábados, havia música ao vivo durante uma hora ou mais. Para aquela noite estava programada uma banda de rock, que ainda se preparava para a apresentação.
Um jovem e esguio guitarrista passou por ali apressado, os longos cabelos esvoaçando e a camisa toda aberta.
Afastou do rosto uma mecha de cabelo e piscou para Adriana.
- E aí, meu bem, que tal uma bebida depois do show?
- Vou pensar no seu caso.- disse ela, sorrindo.
Aquela resposta devia ser suficiente para desencorajar um tipo daqueles, bonito e acostumado a ter todas as mulheres a seus pés.
Adriana já estava saturada de gente assim, apesar de continuar sentindo atração por homens que trabalhavam à noite.
Já se envolvera com vários músicos e atores.
Chegara até a conhecer um policial, que a fascinara por ser muito vivido e conhecer as malícias da rua.
O fascínio vinha exatamente do perigo que emanava dele.
Perigo.Precisava ter cuidado.
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