Homens que se tornam pais porque querem, porque descuidam ou simplesmente porque estão predestinados!
Nicolas Santino não consegue aceitar que Lia seja sua filha. Acredita que Sara, sua mulher, o tenha traído com outro homem e que Lia seja a prova da traição.
Por isso, Sara e Nicolas se separaram, até que um acontecimento forçou o reencontro: Lia foi sequestrada! Nicolas sabe que é o único que pode recuperar a criança viva, mas isso significará voltar para Sara... e descobrir que, mesmo após três longos anos, ela ainda usa a aliança...
Capítulo Um
Londres.
A casa, imponente, ficava num endereço sofisticado, próximo ao Hyde Park. Eram cinco e quarenta e cinco da tarde, seis horas após o início do tormento.
A tensão na sala de visitas lindamente decorada era quase palpável. Pessoas se reuniam em pequenos grupos, algumas falando num tom baixo e grave, outras irrompendo em choro ocasionalmente. Algumas consolavam, outras se mantinham apartadas de tudo, em silêncio.
Sara pertencia ao último grupo, sentada solitária numa poltrona de couro. Parecia calma enquanto olhava para o tapete claro sob seus pés, indiferente a tudo.
Mas o fato era que ela não estava indiferente. Cada movimento, cada som fazia sua mente reverberar. Se movesse um músculo, seu autocontrole, mantido a tão duras penas, ruiria como um castelo de cartas.
Quando a terrível notícia chegara, Sara fora arrebatada por um terror incontrolável. Tentaram coloca-la na cama. Tentaram fazê-la tomar tranquilizantes para livrá-la do tormento. Tentaram mantê-la desligada de tudo.
Ela se recusara. O que mais poderia fazer? Como uma mãe poderia refugiar-se no sono num momento como aquele?
Mas não havia nada mais torturante do que a espera.
Tinha que esperar pelo homem que era o centro daquela crise, pelo homem que chegaria para controlar a situação.
Já lhe haviam informado que ele estava a caminho, como se a notícia pudesse fazê-la sentir-se melhor. Nada, porém, poderia curá-la daquele horror. Nada. Ninguém.
Portanto, lá estava ela, olhos baixos para que ninguém pudesse adivinhar sua aflição, para que ninguém pudesse ver a palidez de sua pele, realçada pelo negro da camiseta de mangas longas e da calça de stretch.
O som repentino de um carro freando diante da casa deixou a todos em estado de alerta. Sara não se mexeu, nem ergueu os olhos.
Ouviu-se o som de vozes no hall de entrada, uma delas destacada pelo tom incisivo e autoritário.
Os passos, firmes e precisos, aproximaram-se da sala de visitas fechada. Todos dentro da sala voltaram-se quando a porta se abriu, os olhos ansiosos cravados no homem que apareceu à soleira.
Sara, entretanto, manteve os olhos fixos no tapete, contando cuidadosamente os pequenos botões de rosa que faziam parte do padrão do tecido, em tons pálidos de azul e pêssego.
Alto, atlético, cabelos negros, corpo rijo. Camisa branca, gravata escura, terno cinza, com o caimento característico de uma seda cara. O rosto tinha um bronzeado natural, realçando o nariz longo e reto, a boca resoluta e sensual. E os olhos... Eram olhos de um caçador, de um predador. Dourados, como os olhos de um tigre. Frios, como as linhas do rosto. Um homem talhado em pedra.
Ele ficou parado à porta por longos e cruciais segundos, mantendo a todos em suspense. Os olhos frios perscrutaram o ambiente até encontrar Sara, sentada em seu esplendor solitário, o rosto baixo, distante.
O homem se aproximou, os movimentos sinuosos como os de um felino, e parou diante dela.
— Sara? — chamou em tom baixo.
Ela não se moveu. Os olhos focalizaram debilmente o par de sapatos de couro feitos a mão.
— Sara! — Dessa vez, havia um tom mais autoritário naquela voz.
Os olhos enevoados subiram lentamente, contemplando as longas pernas, o torso poderoso. Finalmente, os olhos azuis encontraram os do homem que ela desejara jamais voltar a ver.
Há quanto tempo não o via? Dois, quase três anos? E, nesse tempo todo, ele mudara muito pouco. Mas por que haveria de mudar? Afinal, Nicolas Santino era forte, poderoso, podia se dar ao luxo de ter casas elegantes nos melhores endereços das capitais mais importantes do mundo. Nascera para o poder, criara-se no poder e usava o poder. Quando erguia a voz, as pessoas se intimidavam.
Era um homem que possuía tudo: boa aparência, um corpo perfeito e saudável, inteligência aguda. O que três anos poderiam mudar? O olhar, talvez? Poderia ser mais inclemente?
Afinal, ele era o inclemente. Ela, a pecadora.


