Raphael Johnson havia regressado a Memphis para recuperar seu passado, sua memória.
Mas nunca imaginara que encontraria uma... Esposa!
Entretanto, ali estava ela... E sempre que ele a tocava, ou beijava, as memórias adormecidas despertavam.
Emeline achava que essas coisas só aconteciam em novelas açucaradas.
Entretanto, ela não podia negar que Raphael ainda tocava seu coração... Profundamente.
Seis anos de separação não eram seis dias.
Ambos haviam mudado, mas, no fundo, Emeline jamais esquecera o marido.
E como poderia, se ele era o pai de seu filho?
E ela precisava contar-lhe este segredo!
Capítulo Um
Emeline Lockwood mirou-se no espelho que ocupava grande parte de uma parede, no saguão do Welcome Hotel. Observando-se com um olhar crítico, notou que parecia tão tensa quanto realmente estava...
O rubor, nas faces, resultado de seu nervosismo, poderia talvez ser confundido com excesso de blush.
Mas como explicar sua respiração acelerada?
E como controlar o impulso de morder o lábio inferior, num gesto que denunciava seu estado lastimável? Emeline perguntou-se, tomando fôlego e apertando com força a pasta que trazia consigo, com seus mais recentes trabalhos gráficos. Precisava, desesperadamente, daquele emprego.
Essa era a pura verdade. Mas seria necessário, também, demonstrar sua ansiedade?
Certamente não, ela decidiu, dirigindo-se ao toalete, à esquerda do saguão.
Deixando a pasta e a bolsa sobre um balcão de mármore, ela mirou-se novamente no espelho e meneou a cabeça.
— Emeline Lockwood... — repreendeu-se, baixinho — você precisa manter o autocontrole. Caso contrário, perderá mais esta chance.
Depois de refrescar as mãos e os pulsos, retocou a maquia¬gem e sorriu para a imagem refletida no espelho.
Agora se sentia mais apresentável, pensou, ajeitando a gola do vestido cor de areia, de corte clássico, que ela só usava em ocasiões especiais.
E conseguir um segundo emprego era uma delas... Para uma artista gráfica, e ainda por cima free-lance, as ofertas de trabalho estavam se tornando cada vez mais escassas, em Memphis.
Assim, ao ler o anúncio no jornal, no dia anterior, Emeline apressara-se a ligar para marcar uma entrevista. Agora, ali estava ela, disposta a conseguir o emprego, desde que este lhe parecesse digno e razoavelmente bem remunerado.
Saindo do toalete, Emeline consultou uma pequena folha de papel onde anotara, na véspera, o horário da entrevista e a pessoa que deveria procurar, na suíte 21 do Welcome Hotel.
— Três e meia da tarde, com o Sr. Johnson — leu, em voz baixa.
Uma torrente de lembranças a invadiu, como, aliás, sempre acontecia, quando ela deparava com o sobrenome Johnson.
Lembranças que evocavam uma época áurea de sua vida, quando fora totalmente, gloriosamente feliz.
Com um sorriso que era a um só tempo comovido e melancólico, Emeline repetiu um gesto que havia adquirido nos últimos seis anos: inserindo dois dedos no espaço entre os botões do vestido, tocou o anel que carregava entre os seios, no sutiã.
Tratava-se de um anel comum, de formatura, da Universidade do Texas.
Mas fora sua aliança de casamento, no momento em que ela se tornara a Sra. Johnson, esposa legítima de Raphael David Johnson.
Ainda agora, Emeline podia sentir a emoção que a tomara, naquele instante sublime, em que o futuro mais parecia uma infindável estrada, cheia das mais belas promessas de felicidade.
Com um suspiro que mesclava tristeza e impaciência, Emeline chamou-se de tola.
Retirando os dedos, decidiu afastar para longe as recordações.
Não devia se dar ao luxo de ficar frágil emocionalmente, poucos minutos antes de uma entrevista que seria decisiva para sua carreira e para sua situação econômica atual.
Tampouco podia abater-se daquela maneira, sempre que ouvia, ou lia o nome Johnson.
Até quando continuaria reagindo assim? Afinal, esse nome já pertencia ao passado.
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