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domingo, 6 de dezembro de 2015

Coragem de Escolher

ROMANCE CONTEMPORÂNEO





Eles jamais esqueceriam o momento em que se descobriram apaixonados.

Cassie soltou os cabelos, despiu-se e mergulhou nas águas límpidas do rio, deixando que os raios cálidos do sol aquecessem sua nudez. Depois, estirou-se numa pedra e fechou os olhos, com um leve sorriso brincando nos lábios.
Foi assim que Quentin a viu, bela como uma deusa, esplêndida em seu corpo de formas perfeitas. 
Sem hesitar, ele tirou também a roupa e nadou ao encontro daquela mulher com quem sempre sonhara...

Capítulo Um

Outono em Oklahoma. O sol, bastante forte, reverberava no as­falto que se perdia de vista. A linha negra cortava o sudoeste do estado por entre as propriedades rural características da região: criação extensiva de gado e alguma agricultura, poucas indústrias. O local era habitado por um povo vigoroso e bravo, acostumado às intempéries, desde o sol cáustico do verão até as nevascas rudes do inverno.
Atravessando este cenário, Cassie Marlow dirigia sua picape, a oitenta quilômetros por hora, desatenta à beleza em tomo. Em sua mente a certeza de que dentro de instantes iria rever Quentin Hatfield absorvia todos os outros pensamentos.
Nove anos haviam se passado desde que vira pela última vez o homem que lhe habitava o coração e agora sentia vibrar, em cada fibra de seu ser, a expectativa do reencontro.
Teria ele mudado, esquecido aqueles momentos tão caros? A res­posta estava a poucos quilômetros e ela pisou com força o ace­lerador.
A estrada agora se curvava à esquerda em acentuado aclive. No alto, teria de abandonar a autopista e enveredar por uma vicinal de terra.
Com o automatismo de quem passara grande parte da juventu­de naqueles caminhos conhecidos, Cassie Marlow desacelerou e re­duziu a marcha. O sol agora penetrava pela janela, à esquerda, incendiando-lhe os longos cabelos anelados, muito loiros, com re­flexos avermelhados.
Os pensamentos de Cassie estavam naturalmente voltados ao pas­sado, à infância e juventude que desfrutara com todo vigor ao la­do dos irmãos e de Quentin Hatfield, considerado um a mais na família. E como irmãos haviam se tratado por anos e anos fe­lizes, repletos de aventuras, cavalgadas pelas colinas, mergulhos nos rios profundos... Os banhos de cachoeira, os primeiros bailes...
Fora depois de uma reunião dançante na fazenda vizinha que, pela primeira vez, Cassie descobrira haver uma diferença marcan­te entre Quentin e seus verdadeiros irmãos. Aliás, fora ele mesmo quem provocara aquele súbito nascer de uma nova visão, insistin­do em mantê-la como par durante quase toda a noite, elogiando seu vestido rosa e branco, acariciando-lhe os cabelos e por fim beijando-a, meio sem jeito, à porta da casa, na hora da despedida.
A pergunta que agora se fazia era se teria despertado sozinha para aquele sentimento, caso ele não houvesse insistido em vê-la a sós, falado da doce emoção chamada amor, lhe tocado o corpo com desejo e ternura.
Era muito tarde para responder a esta questão. O presente apa­recia diante dos olhos de Cassie, na forma de diversos veículos, na maioria, utilitários, estacionados à sombra de grandes árvores, perto da sede da fazenda para onde se dirigia.
Lá estava o caminhão de Springer, ela identificou com facilida­de. Afinal, o irmão, um ano mais novo que Cassie, jamais deixa­ria de participar de um encontro da “tribo”, que era a forma de tratarem o grupo de amigos em comum.
Estacionando a picape o mais perto possível da porteira, ela ca­minhou decidida em direção ao curral, onde alguns homens e pou­cas mulheres pareciam atentos a algo que acontecia no centro do cercado. Muitos estavam empoleirados nas largas tábuas que cir­cundavam o curral e tomavam quase todos, cerveja em lata, co­mo de costume.
Há nove anos, se estivesse com os cabelos presos, Cassie pode­ria ser tomada facilmente por um rapaz, dada sua alta estatura, as pernas longas e firmes, tão características dos Marlow, o nariz arrebitado e os olhos intensamente azuis num rosto constantemente queimado pelo sol. Os passos resolutos e largos, somados às cal­ças jeans, botas e camisa axadrezada, completavam o quadro e, quem sabe, um equívoco constrangedor.
Mas o tempo passara e a natureza se encarregara de arredon­dar-lhe as formas, dando-lhe suavidade ao corpo, uma sensuali­dade inegável que emanava dos gestos mais despretensiosos.
Embora continuasse vestindo as mesmas calças jeans e camisas masculinas, o contorno dos seios generosos desmentia a severidade das roupas.