
Cane Kirk perdeu mais do que o braço na guerra.
Ele também arruinou a própria alma em intermináveis batalhas contra demônios internos que o instigavam a desafiar qualquer caubói que cruzasse seu caminho.
Não parecia existir uma pessoa capaz de arrebatar sua fúria, a não ser a linda Bodie Mays.
Salvar Cane dele mesmo não seria um problema, apesar de ele ser um pouco tentador demais para a paz de espírito de Bodie.
Porém, ao se ver em perigo, Bodie receia revelar a verdade a Cane.
Como confiar em alguém tão imprevisível e selvagem?
Quando o silêncio dela só acaba complicando ainda mais situação, Cane é obrigado a assumir o papel de herói.
E dependendo de sua performance, talvez não precise mais ser um lobo solitário...
Capítulo Um
Bolinda Mays experimentava uma certa dificuldade para se concentrar no livro de biologia. Não dormira direito, preocupada com o avô.
O homem tinha apenas 60 e poucos anos, mas estava incapacitado e com problemas para pagar suas contas.
Viera da faculdade, em Montana, para passar o fim de semana em casa.
A viagem era dispendiosa, considerando a gasolina gasta para ir e voltar em sua velha, mas útil, picape.
Por sorte, trabalhava meio expediente em uma loja de conveniência, caso contrário não poderia se dar ao luxo de vir em casa ver o avô.
Era início de dezembro. Não faltava muito para o Natal e faria as provas finais na semana seguinte. O tempo frio não tardaria a chegar.
Mas o padrasto voltara a fazer ameaças sobre despejar seu avô da casa que um dia pertencera à mãe dela. Com a morte da filha, ele ficara à mercê daquele tolo caçador de fortunas que estava metido em todas as confusões que aconteciam em Catelow, Wyoming.
Bolinda estremeceu, pensando na dificuldade que já passava para pagar os livros usados que comprara com o cartão de crédito. Agora seria obrigada a arcar com as contas do avô também.
A gasolina estava tão cara, pensou pesarosa. O pobre velho fora forçado a optar entre comprar mantimentos ou os remédios para a pressão sanguínea.
Pedir ajuda aos vizinhos, os Kirk, era uma possibilidade. Mas o único deles que conhecia bem era Cane, e ele a antagonizava. E muito. Seria arriscado pedir-lhe dinheiro.
Isso se ousasse fazê-lo.
Não que ele não lhe devesse algo por todas as vezes que ela salvara pessoas de sua fúria, na pequena cidade de Catelow, Wyoming, não muito distante de Jackson Hole.
Cane perdera um braço no exterior, no Oriente Médio, após o último grande conflito, enquanto ainda estava a serviço. Voltara para casa amargurado, frio e com ódio da humanidade.
Entregou-se à bebida e não quis se submeter a sessões de fisioterapia e análise, tornando-se um sujeito irracional.
A cada duas semanas, arrumava uma briga no bar local.
Os outros irmãos, Mallory e Dalton, sempre pagavam o prejuízo e sabiam que o proprietário do estabelecimento era benevolente o bastante para não mandar prendê-lo.
Mas a única pessoa capaz de fazer algo por Cane era Bolinda, ou Bodie como os amigos a chamavam.
Até mesmo Morie, a esposa de Mallory Kirk, não conseguia lidar com Cane quando ele estava bêbado. Ele era intimidante.
Mas não tanto para Bolinda.
Ao contrário das outras pessoas, ela o compreendia.
Era surpreendente, considerando que tinha apenas 22 anos e ele, 34. Era uma grande diferença. Mas isso nunca pareceu importar.
Conversavam como se tivessem a mesma idade, muitas vezes sobre assuntos que ela não precisava saber. Cane parecia considerá-la um de seus camaradas.
Não que ela aparentasse ser homem. Não era muito bem dotada no quesito sutiã, é claro.
Seus seios eram pequenos e rijos, mas nada como as mulheres nas capas de revistas masculinas. Sabia disso, porque Cane namorara uma modelo, uma vez, e lhe contara detalhes sobre ela.
Mais uma de suas conversas embaraçosas quando estava bêbado, que ele provavelmente não se lembrava.
Sacudindo a cabeça, tentou mais uma vez se concentrar no livro de biologia.
Suspirou, correndo a mão pelo cabelo escuro, curto e ondulado. Seus curiosos olhos castanho-claros, estavam fixos nos desenhos da anatomia humana interna, mas ela simplesmente não conseguia fazer o cérebro funcionar.
Teria uma prova final escrita na semana seguinte e outra oral de laboratório, e não queria ser a aluna a tentar se esconder embaixo da mesa quando o professor começasse a fazer as perguntas.