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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Contracorrente

ROMANCE CONTEMPORÂNEO


Casos arquivados eram a especialidade de Gray Hollowell. 


Para um detetive entediado e de licença médica, remexer nas evidências de um acidente de barco ocorrido há 27 anos na ilha particular de Edgar Henry parecia ser as férias de que ele precisava. 
Edgar pagou a Gray em dinheiro, deu-lhe a chave de seu chalé, contou-lhe o que sabia sobre a morte de sua esposa e morreu. 
Mas foi somente quando Mariah. filha de Edgar, veio para pegar as cinzas do pai, que o detetive sentiu a atração de sua beleza inocente e o horror deste caso arquivado. 
Era óbvio que os parentes não gostavam dela e queriam que desaparecesse - como aconteceu com sua mãe - mas não antes de obterem o controle de sua parte na herança da família. 
Gray poderia facilmente receber o dinheiro de Edgar e ir embora. 
Mas problemas de família podem ser complicados. E ele sabia, sem sombra de dúvida, que Mariah iria precisardele. 


Capítulo Um 


Maio, 2003 Ilha Henry, Carolina do Norte 
Fosse o que fosse que a levava de volta à ilha, era mais forte do que Mariah esperara. 
Ao mesmo tempo, repeli-a. 
Isso sempre acontecera, desde que a sua infância confortável ficara fragmentada num só instante. As vezes, até sonhava com isso. 
Não com o pesadelo... isso era diferente... mas com os dias ociosos nos quais se fartava com os sanduíches grandes e suculentos de tomates caseiros e maioneses, à espera, impacientemente, de poder correr para a água, onde os seus primos já nadavam. 
Nos seus sonhos, a maré afastava-se quando pulava na água. 
Neles, sempre tinha que lutar contra uma corrente poderosa que, implacável, a arrastava para o píer. 
Quase preferia ter o pesadelo. Pelo menos, nele não conseguia fazer nada. 
O que acontecia ali, simplesmente... acontecia. 
A chuva começou a cair minutos depois de a lancha se afastar do cais. 
Tinha a capa num baú, guardada para ser usada assim que decidisse para onde queria ir. 
Ao rebuscar entre os restos dos últimos sete anos, só deixara roupa suficiente para algumas semanas. 
Enquanto o jovem ao timão da robusta embarcação carregava no acelerador, a umidade voou outra vez para ela e colou-lhe o cabelo escuro no rosto. 
Em São Francisco também havia ar marinho, mas, de algum modo, não era o mesmo. 
Nada era o mesmo. Sentia-se como suspensa entre duas vidas. 
Com sabor de água salgada nos lábios, agarrou-se à amurada com uma mão e levou a outra ao estômago, rezando para não vomitar. 
Na verdade, nunca vomitara num navio, mas recordava-se de ter se sentido enjoada uma ou duas vezes. 
No entanto, naquela vez, não era a água que lhe causava aquela sensação de náuseas, era... Tudo. Simplesmente, tudo. 
— Lamento o que aconteceu à sra. Maud — gritou o jovem. — Era sua avó, não era? 
Esquecendo as náuseas, Mariah assentiu. 
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