Ele sabia que a aquela fascinante deusa estava mentindo...
Qualquer mulher, com o carro quebrado em uma estrada deserta, ficaria feliz se aparecesse a polícia.
Essa não ficou.
Seu olhar temeroso dizia que era culpada de alguma coisa — que estava fugindo.
Desconfiado, o xerife Spencer Halloway decidiu investigar a desconhecida e a menina que a acompanhava, a quem chamava de filha.
Com que ardor Spencer desejava que ela fosse inocente — apesar das contradições, apesar das mentiras!
Porque ele descobriu que estava se apaixonando pela misteriosa estranha...
Capítulo Um
Spencer Halloway avistou o carro ao chegar ao alto da ladeira.
Notou que estava mal estacionado no acostamento.
O pisca-pisca projetava reflexos nervosos nas poças da estrada.
Franzindo a testa, pisou no freio e derrapou no asfalto liso.
Que louco estaria fora da estrada às onze e meia da noite de um domingo, debaixo daquela chuva?
Os turistas de fim de semana já haviam partido, mas não se tratava de gente conhecida, o automóvel não era da cidade.
Em todo caso, tinha o dever de socorrer motoristas em dificuldade, mesmo estando morto de cansaço, mesmo com aquele temporal. Afinal, era o xerife de Pine Creek.
Parou a Chevy S-10 atrás do Pontiac avariado e abriu a porta.
A chuva salpicou a calça cinza-clara de seu uniforme. Ele ficou tenso, como sempre que se defrontava com situações imprevistas.
A experiência lhe ensinara que o que parecia inofensivo podia ser fatal.
Curvado sob a chuva, aproximou-se do carro. Instintivamente, levou a mão ao coldre, ao mesmo tempo que murmurava uma breve oração.
"Que não seja uma encrenca, meu Deus."
Respirou fundo, tentando controlar a apreensão.
"Cumpra o seu dever, Spencer."
Bateu na janela embaçada. Notou um movimento brusco no interior do veículo.
Com cautela, uma mulher abriu alguns centímetros do vidro. Estava pálida.
Como era seu costume, Spencer iluminou com a lanterna a frente do uniforme. Percebeu que, ao ver o distintivo em seu peito, ela se imobilizou.
Qualquer motorista com um carro encrencado num trecho perdido de estrada, encarava um policial como um salvador. Mas não foi o caso. A moça parecia assustada. E ele achou melhor ficar alerta.
— Boa noite — disse.
— Problemas?
A luz da lanterna passou pelos olhos castanhos da viajante. Pestanejando, ela desviou o rosto. Demorou a responder.
— O motor morreu. Não consigo dar a partida. Acho que está afogado.
Não era de frustração o tom de sua voz.
Spencer era capaz de jurar que ela estava com medo. Para tranqüilizá-la, falou com firmeza:
— Por que não abre o motor? Vou ver se detecto o problema.
Sem dizer uma palavra, a mulher soltou a trava do capô.
Ao contornar o carro, ele avaliou a reação da estranha. Esquisita. Muito esquisita.
A chuva caía abundantemente quando ele se debruçou sobre o motor.
Era-lhe difícil concentrar-se em qualquer coisa que não fosse livrar-se logo do problema e voltar para um lugar seco.
Porém estava desconfiado, pronto para saltar de lado se o motor começasse a funcionar de repente.
Nunca era demais estar preparado para o pior.
E, naquela noite fria e úmida, não desejava ingressar em nenhuma estatística.
