Dois amantes apaixonados sob a ameaça de uma trama de mentiras
No abandono da rede levemente embalada na varanda, Tessy Kenyon teve a sensação de flutuar, quando Keneth McAllister aproximou os lábios e a beijou apaixonadamente. O ar quente da tarde, o marulho das ondas, os ruídos da mata... tudo contribuía para intensificar a atmosfera de magia e excitação naquela longínqua ilha do Caribe.
Mas Tessy precisava encontrar forças para repeli-lo, apesar do desejo ardente que a consumia por dentro. Quando chegasse o momento de pôr seu plano em ação, teria que partir sozinha. E uma noite de amor apenas não seria suficiente. Ela queria mais dele, muito mais...
Capítulo Um
Tessy Kenyon andava de um lado para outro na sala de espera do hospital, seguindo a regra de uma velha brincadeira de criança: no soalho xadrez, pisava apenas nos quadrados pretos. Ainda se lembrava de quando fazia isso com sua irmã, Lori.
Voltou-se ao ouvir passos e deu com Margie Taylor. Ela parecia ainda mais furiosa do que quando saíra duas horas antes, e Tessy foi ter com ela.
— Como está Lori? — Perguntou, sem ao menos cumprimentá-la.
— Nada de novo. Ainda não permitiram que eu a visse. Margie colocou uma bolsa sobre a cadeira, seguida pelo olharatento de Tessy. Então Lori ainda conservava aquela bolsa! Fora um presente seu quando a irmã fizera dezoito anos e entrara para a faculdade. Pregara uma etiqueta nela com os dizeres: "Califórnia, aqui vou eu". Pois sim...
— Já sei por que ela fez isso. — Margie sentou-se e começou a remexer na bolsa.
Tessy observou-a atentamente. A luz da manhã banhou os cabelos da amiga, emprestando-lhes uma tonalidade acobreada. O efeito do sol em seu rosto, contudo, não era tão favorável. Vista sob aquela luminosidade, a advogada e amiga de Lori parecia ter mais que seus trinta e cinco anos. Tinha o rosto pálido, olheiras pronunciadas... Fora mesmo uma noite terrível.
— Aqui está — disse Margie, afinal, entregando-lhe um pedaço de papel amarelado. — Encontrei isso na cozinha.
A caligrafia era irregular, inclinada para a esquerda. Demorou algum tempo até que Tessy percebesse que aquilo não foraescrito por Lori. Não se tratava, portanto, da carta de uma suicida.
— Sente-se, Tessy. Ê melhor.
— De quem é a carta? — Perguntou ela.
— Herbert Kopesky, o detetive que tem trabalhado para Lori nos últimos cinco meses.
— Ah, sim! O buraco negro!
— O quê?
— O rombo em meu orçamento. Antes de Lori contratá-lo, eu tinha uma caderneta de poupança.
Uma caderneta com uma quantia razoável. Agora, Tessy fora obrigada a pagar a passagem de avião de Boston a Los Angeles com um cartão de crédito. Não tinha mais dinheiro na conta corrente e ainda faltava uma semana para receber seu salário.
— É um bom detetive, Tessy. Eu mesma o recomendei.
— É mesmo? — Indagou a outra com pouco caso.
— Não é exatamente um modelo de bons modos, mas é honesto e competente. Tem recebido apenas o dinheiro das despesas nos últimos meses.
— Desculpe-me, Margie, estou exausta. Eu... Ela está sem dinheiro outra vez?
— Quase... Desde que perdeu o emprego na Datatronics. Ela não lhe contou?
— Não. Quando foi?
— Há quase um mês. Surpreende-me que ela não lhe tenha dito nada.
Surpreendente e lamentável. Devia estar perto de Lori quando aquilo acontecera. Lori, que sempre fizera questão de agradar a todos, fora despedida. Um ato de rejeição que, provavelmente, fora a última gota. E ninguém por perto para ajudá-la...
Tessy sacudiu a cabeça, pesarosa. A julgar pelas contas de telefone que pagara nos últimos meses, tinha certeza quase absoluta de que estava próxima da irmã. Talvez todo aquele apoio a distância não tivesse o mesmo valor que um abraço. E, no entanto, estivera tão ocupada... O emprego, a necessidadede sustentar não apenas ela própria, mas também Lori... E ainda. . . Brian... Sim, ali estava a resposta.
— Sim, é isso — murmurou ela.
— O quê?
— No mês passado... Lori telefonou... Justamente quando eu estava terminando um... relacionamento. Deve ter telefonado para me dizer que havia perdido o emprego...
Lembrava-se muito bem do que acontecera. O telefone tocara enquanto ela empacotava suas coisas. E, uma vez na vida, Tessy, a mulher forte e prática, descontrolara-se. Lori escutara com paciência os lamentos da irmã. Haviam invertido os papéis bem na ocasião em que Lori mais tivera necessidade de ser confortada. Sim, porque o rompimento de um relacionamento imperfeito não podia ser comparado ao inferno em que Lori vivia.
— Tessy, pare com isso. Não pense nisso. Não sabemos ainda se foi ou não uma tentativa de suicídio.
Uma jarra de vinho vazia. Um vidro de calmante igualmente vazio. De que mais Margie precisava para ter certeza?
— Além disso, mesmo que tenha sido uma tentativa legítima de suicídio, a culpa não é sua.
— Mas eu...
— A culpa não é sua nem minha e, muito menos, de Lori. Só há um culpado nessa história toda: Jon Aston. E você sabe muito bem disso. Agora, leia a carta.
Margie talvez tivesse razão. Assim, Tessy tratou de tentar decifrar os garranchos de Herbert Kopesky.
"Cara sra. Aston,
Sinto dizer-lhe, mas estou fora do caso. Acabo de voltar da Suíça com a boca em pedaços e, mesmo sendo um bom esportista, acho que já tive o suficiente.
De qualquer modo, vi seu filho. Aliás, cheguei a agarrá-lo. Creio que gostará de saber que ele me parece muito bem (sem dúvida, está gritando e esperneando muito bem). Infelizmente, porém, ele agora tem um guarda-costas que é mais duro do que parece: descobri isso do modo mais doloroso possível. Assim que saí do hospital, o maldito Aston já havia deixado a Suíça, e não pude descobrir seu destino. Creio que seria melhor desistir e negociar. Se ele estiver disposto a isso, é claro.
Não telefone. Vou tirar férias, pelo menos até que consiga beber cerveja sem canudinho outra vez. E, mesmo que eu me encontrasse em casa, não poderia lhe dar outra resposta além de grunhidos.
Caso queira continuar a caçada, tenho uma informação que talvez lhe seja útil. Descobri que há apenas dois lugares fora dos Estados Unidos para os quais Aston viaja, além da Suíça: St. Matthew, no Caribe, e o Rio de Janeiro. O garoto, com certeza, está em um desses dois lugares. Creio que a senhora deveria tentar primeiro St. Matthew; é mais perto e mais barato.
Sinto muito mesmo por não ter conseguido recuperar seu garoto.
Respeitosamente Herbert Kopesky Investigador Particular P.S.: Quanto às contas, se algum dia ficar rica, não sou orgulhoso. Do contrário, esqueça. Foi uma experiência e tanto."
Sinto dizer-lhe, mas estou fora do caso. Acabo de voltar da Suíça com a boca em pedaços e, mesmo sendo um bom esportista, acho que já tive o suficiente.
De qualquer modo, vi seu filho. Aliás, cheguei a agarrá-lo. Creio que gostará de saber que ele me parece muito bem (sem dúvida, está gritando e esperneando muito bem). Infelizmente, porém, ele agora tem um guarda-costas que é mais duro do que parece: descobri isso do modo mais doloroso possível. Assim que saí do hospital, o maldito Aston já havia deixado a Suíça, e não pude descobrir seu destino. Creio que seria melhor desistir e negociar. Se ele estiver disposto a isso, é claro.
Não telefone. Vou tirar férias, pelo menos até que consiga beber cerveja sem canudinho outra vez. E, mesmo que eu me encontrasse em casa, não poderia lhe dar outra resposta além de grunhidos.
Caso queira continuar a caçada, tenho uma informação que talvez lhe seja útil. Descobri que há apenas dois lugares fora dos Estados Unidos para os quais Aston viaja, além da Suíça: St. Matthew, no Caribe, e o Rio de Janeiro. O garoto, com certeza, está em um desses dois lugares. Creio que a senhora deveria tentar primeiro St. Matthew; é mais perto e mais barato.
Sinto muito mesmo por não ter conseguido recuperar seu garoto.
Respeitosamente Herbert Kopesky Investigador Particular P.S.: Quanto às contas, se algum dia ficar rica, não sou orgulhoso. Do contrário, esqueça. Foi uma experiência e tanto."


