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sábado, 23 de maio de 2009

A Honra do Silêncio

Contemporâneo anos..90




No início dos anos quarenta uma jovem japonesa, Hiroko Tahashimaya, é incentivada pelo seu pai, um professor universitário muito à frente do seu tempo, a ir estudar nos Estados Unidos.
A jovem vai então viver com os tios na Califórnia.
Aí conhece valores completamente diferentes daqueles a que estava habituada e rapidamente se sente fascinada pelo que o Ocidente lhe pode oferecer.
Apaixona-se pelo seu professor americano e vive momentos de verdadeira felicidade.
O deslumbramento acaba quando os japoneses atacam Pearl Harbor e os Estados Unidos decidem entrar na Segunda Guerra Mundial.
A partir daí tanto Hiroko como toda a comunidade de japoneses residentes nos Estados Unidos passam a ser considerados inimigos e são fortemente pressionados pelos militares, que obedecem a ordens do próprio presidente Franklin Roosevelt, a vender as suas casas e abandonar os seus empregos.


Capítulo Um


Há cinco anos que a família procurava uma noiva apropriada para Masao Takashimaya, desde que ele atingira os vinte um. Contudo, apesar de todos os esforços feitos para encontrar jovens que lhe conviessem, ele rejeitava-as, mal as conhecia.
Masao queria uma rapariga muito especial, que não só o servisse e respeitasse, como o intermediário garantia em relação a cada uma delas, mas uma mulher com quem pudesse conversar. Alguém que não se limitasse a ouvi-lo e a obedecer, mas uma companheira com quem pudesse partilhar ideias.
E nenhuma das jovens que conhecera nos últimos cinco anos se aproximara sequer das suas pretensões. Até surgir Hidemi.
Ela tinha apenas dezenove quando se encontraram e vivia num buraku, uma minúscula comunidade agrícola, próximo de Ayabe.
Era uma jovem bonita, elegante, pequena e extremamente graciosa. O rosto parecia talhado no mais fino mármore e os olhos pretos assemelhavam-se a ónix brilhante. E mal falou a Masao quando o conheceu.
De início, Masao achou-a demasiada tímida, demasiada receosa dele, igual a tantas outras que lhe haviam sido apresentadas antes.
Queixava-se de que eram todas muito antiquadas, que não queria uma mulher que o seguisse como um cão e o olhasse aterrorizada.
No entanto, as mulheres que conhecia na universidade também não lhe agradavam. Havia, na realidade, muito poucas.
Quando começara a ensinar, apenas contactava com as filhas e as mulheres dos outros professores, ou com estrangeiras. À maioria faltava, porém, a total pureza e doçura de uma jovem como Hidemi.
Masao queria tudo numa mulher, tradições antigas aliadas a sonhos de futuro. Não esperava que soubesse muitas coisas, mas que tivesse uma ânsia de aprendizagem semelhante à dele.
E, aos vinte e seis anos, depois de haver ensinado dois anos na Universidade de Quioto, tinha-a descoberto. Achara-a perfeita.
Era suave e tímida, mas mostrara-se fascinada pelas coisas que ele dizia.
Servira-se do intermediário para lhe fazer perguntas interessantes sobre o seu trabalho e a sua família e até mesmo sobre Quioto. Raras vezes erguera o rosto na sua direcção.
Mas uma vez apanhara-a a fitá-lo timidamente e achara-a de uma extraordinária beleza.
Decorridos seis meses após o dia em que se haviam conhecido, Hidemi encontrava-se agora ao seu lado, de olhos baixos, vestida com o pesado quimono branco que a avó usara, com a mesma elaborada faixa de brocado dourado à cintura.
Uma pequena adaga pendia da mesma para lhe permitir suicidar-se, caso Masao decidisse que não a desejava.
No cabelo cuidadosamente penteado usava o tsunokakushi, que lhe tapava a cabeça mas não o rosto e fazia com que lhe parecesse ainda mais frágil, ao olhá-la.
E logo abaixo do tsunokakushi, ostentava os kan zashi, os finos enfeites de cabelo que haviam pertencido à mãe. A mãe também lhe oferecera um enorme rolo, feito de fios de seda, e tecido ao longo da vida de Hidemi.
Começara-o quando esta tinha nascido e aumentara-o ao longo dos anos, nunca deixando de rezar para que ela fosse graciosa, nobre e sábia. Tratava-se do presente mais valioso que a mãe podia oferecer-lhe, um requintado símbolo do seu amor, das suas preces e esperanças de futuro.
Masao vestia o tradicional quimono preto com um casaco por cima, ostentando o brasão da família, mantendo-se orgulhosamente ao lado dela. Cada um bebeu três goles de saque de três taças diferentes e a cerimónia prosseguiu.
Já tinham estado no santuário xintoísta nesse dia para um ritual particular e aquele era o casamento público e formal que os uniria para sempre, diante da família e dos amigos, enquanto o mestre-de-cerimónias contava histórias sobre os parentes de ambos, e a sua importância.
As duas famílias encontravam-se presentes e também alguns dos professores, que eram colegas de Masao em Quioto.
Apenas o seu primo Takeo estava ausente. Era cinco anos mais velho do que Masao e também o seu melhor amigo; gostaria imenso de se encontrar ali. Contudo, Takeo fora para os EUA no ano anterior, a fim de ensinar na Universidade Stanford, na Califórnia.