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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A Herdeira dos Diamantes

ROMANCE CONTEMPORÂNEO



“Você brilha como um diamante, mas é tão fria quanto gelo”

Susan entrou no salão e todos os olhares concentraram-se nela. 

Os convidados deviam estar se perguntando por que aquela jovem inglesa estava em Luanda, na África, ostentando seu belo vestido de seda e os preciosos diamantes da família, enquanto o país vivia uma sangrenta guerra civil. 
A amabilidade forçada das pessoas começou a irritá-la. 
Mas foi o comentário do homem designado para protege-la que a desconcertou: “Odeio mulheres como você, odeio tudo o que representam”

Capítulo Um

O som de risos e conversas dos convidados enchia o ar quente e úmido da noite, chegando até Susan. Sozinha, no grande terraço de pedra, ela olhava para os telhados dos edifícios da Mina Lambouchere e, mais ao longe, o vale. 
O luar da noite africana atravessava a folhagem de uma imensa árvore, iluminando-lhe os cabelos castanho claros e fazendo brilhar os fios de prata do seu vestido branco.
Suspirou, tentando ignorar o suor que molhava suas costas.
Por que ela tinha ido para aquele país horrível? No dia anterior, assim que o avião aterrissou no aeroporto e ela deixou o ar refrigerado para caminhar sob o calor úmido e insuportável, percebeu que havia cometido um erro. Luanda era "a terra esquecida por Deus", segundo seu tataravô. E, ao sentir a desconfortável sensação do vestido colado ao corpo esguio, ela logo achou que ele tinha razão.
Abriu a bolsa e tirou um lenço para enxugar as gotas de suor que lhe cobriam a testa. Ela não só tinha chegado na estação mais quente do ano, como também não conseguira fazer amigos. 
As pessoas que conhecera ficavam pouquíssimo à vontade na sua presença, como seria de se esperar, em se tratando de uma jovem e milionária herdeira.
Afinal, quando viera para ali, já sabia o que iria enfrentar. E como deixaria de saber, se Luanda era a maior fonte de riqueza da sua família? Pelo que se lembrava, seu pai mesmo nunca havia visitado o país, preferindo viver em solitário esplendor, trancado na imensa mansão da família até o dia em que morreu.
E quanto a ela? Suspirou outra vez. 
Tinha viajado muito, é verdade, mas sempre no aborrecido círculo da alta sociedade. Só há pouco tempo é que tinha, de fato, entendido o sentido do que seu pai sempre dizia: "O grande aborrecimento de ser rico é ter de viver com os ricos". 
Será que era por isso que se sentia tão apática e deprimida ultimamente? Antes de chegar ao país, pensou que Luanda seria diferente. O que entendia por "diferente" não lhe era muito claro, mas esperava encontrar no coração da África algo que realmente valesse a pena; algo que desse um sentido à sua vida, libertando-a da interminável roda-viva de prazeres superficiais.
Suas ilusões se desfizeram já no caminho entre o aeroporto e a cidade, quando viu, com horror, as condições em que viviam os habitantes. As casas não eram mais do que barracos miseráveis e a população, na sua maioria, parecia doente e desamparada. À noite, tinha sido difícil pegar no sono, com a lembrança das criancinhas de barrigas dilatadas por doenças, os braços e pernas esqueléticos cobertos de feridas.
Tinha consciência de que não poderia fazer nada pelas condições de vida do país, mas queria garantir, quando fizesse a visita oficial às minas no dia seguinte, que pelo menos os trabalhadores empregados pela Companhia Lambouchere tivessem moradia decente!