Ser considerada uma estranha era um sofrimento para Sara Martindale.
Recém-formada em medicina, tinha ido para aquela pequena cidade do sul da Inglaterra com o coração cheio de esperança, vontade de se dedicar ao trabalho e, mais do que tudo, desejo de esquecer um passado!
Então, por que todos a olhavam como se ela fosse uma intrusa? Seria por influência do jovem e poderoso dr. Jim Crombie, que a atacava diante de todos, com críticas ferinas e mordazes?
Não importava o motivo de tanta hostilidade: Sara decidiu lutar e conquistar a cidade... e o amor desse homem orgulhoso e fascinante.
Capítulo Um
Sara percorria as ruas da antiga cidade de Suffolk, feliz por estar na última etapa de sua longa jornada. Dirigira desde as oito horas da manhã, com um intervalo para o almoço, e já eram quase quatro horas. Os rochedos escarpados de Yorkshire e as sólidas casas de pedras cinzentas tinham sido há muito deixados para trás.
Agora o terreno era mais suave, mais verde e as casas eram feitas de madeira ou de tijolos e pedras.
Como ficara contente em deixar Yorkshire para trás! Não por causa dos seus habitantes, que amara e compreendera porque também ela era nortista. Cordiais e amigáveis, mas francos de uma maneira que o pessoal do sul jamais compreenderia, sentira-se em casa com eles.
Que tipo de gente encontraria em Norfolk e Suffolk?
Contra sua vontade, Célia apareceu em seus pensamentos. Sara não sabia do ciúme e da aversão que a noiva do dr. Gregory nutria contra ela, até que o próprio David lhe contou. Ela nunca mais entraria em sociedade com um médico noivo ou casado. Com o tio John, estaria livre desse tipo de coisa.
Tio John, velho amigo de seu pai, era um viúvo de meia-idade. Recentemente, sua saúde vinha falhando, mas a clientela aumentava. Quando ele escrevera dizendo que vinha pensando em contratar um assistente, Sara ficara feliz em oferecer os seus serviços, e ele encantado em aceitar a oferta.
Sara achava que poderia ser feliz ali.
A clientela do tio John — ela sempre o chamara de tio; parecia estranho chamá-lo de outra forma — se espalhava por uma área bastante grande, que compreendia diversas aldeias. Muitos pacientes eram agricultores, naturalmente. Agricultores, silvicultores e operários das novas fábricas que ela tinha visto, pouco antes de entrar na cidade. Muitos destes últimos seriam londrinos, é claro, alguns tão novos quanto ela própria.
Como estariam se adaptando? Como ela própria se adaptaria? Haveria atividades nas aldeias, das quais ela pudesse participar? Teatro, talvez? Seus lábios se curvaram num sorriso divertido. Havia sempre a Associação das Mulheres. Sara acreditava que havia uma em cada aldeia. Nunca tivera experiência com o movimento da Associação das Mulheres, mas lera vários artigos sobre ela em jornais e revistas. Tinha ouvido falar que era ótimo para as mulheres do campo.
Nesse lado da cidade, a estrada atravessava cerca de dezesseis quilômetros do bosque, ou "reserva de caça", como eles chamavam. Sara via de relance faisões de caudas longas, com as penas bonitas e sedosas brilhando ao sol fraco. Também havia cervos, mas eram muito assustados para se mostrarem à luz do dia.
Diminuiu a marcha num cruzamento e seguiu o sinal que indicava a East Norton, onde John Henderson tinha sua casa e consultório.
Agora havia duas fileiras de casas onde antes havia uma estradinha. Eram modernas, com entrada para carro e janelas amplas. Elas são bem bonitas, pensou Sara, mas preferia uma casa do tipo antigo. Por enquanto, todavia, deveria morar com o tio John na grande casa quadrada situada um pouco além da antiga praça do Mercado, agora não mais mercado, mas estacionamento de automóveis.
O progresso, pensou, nem sempre é para melhor.

