Charlotte permaneceu imóvel, olhando pela janela a rua deserta.
"Eu vim para dizer adeus", Curtis falara, antes de sair batendo a porta.
Como era possível perdê-lo, depois dos momentos de avassaladora paixão que haviam acabado de viver? Quase como uma resposta, a imagem do quadro tornou-se nítida em sua memória. A Dama de Azul... Por que ele se recusara a dizer-lhe quem era aquela linda mulher retratada na pintura? Estaria ali a chave do mistério que cercava a vida de Curtis Maxwell?
Capítulo Um
Charlotte Graham apoiou os cotovelos sobre a mesa e começou a examinar com cuidado as provas para o catálogo da próxima exibição dos trabalhos de Fernando Licer. Quem no mundo da arte não conhecia o famoso pintor? Vinte e cinco anos após sua morte, atingira uma fama considerável e crescente. Todos que possuíam uma pintura, desenho ou simples esboço do artista tinham nas mãos um objeto de grande valor.
Ao virar a última página do catálogo, um largo sorriso iluminava-lhe o rosto. Sacudiu a cabeça, agitando os cabelos lisos e loiros.
— É inacreditável!
Linda Reed levantou a cabeça da máquina de escrever, surpresa com o tom entusiasmado da exclamação. Estava acostumada a ver a patroa como um símbolo de eficiência: competente, calma e controlada.
— O quê?
— Isto! Estas provas estão quase perfeitas! Nunca vi um catálogo tão bom.
— As gráficas estão cada vez melhores — comentou Linda, voltando a atenção para a carta que datilografava.
Charlie observou a secretária por um instante. Os dedos da moça voavam sobre o teclado. De certa forma, pensou, a sociedade era injusta. Ambas eram igualmente capazes e eficientes, com a diferença de que Charlie possuía diploma universitário. No mundo artístico, era Charlotte Amanda Graham, bacharel em Artes. O curso de três anos em Newcastle lhe dera a oportunidade de uma boa colocação profissional.
Trabalhava como coordenadora e assistente pessoal do sr. Edward Grant, diretor da College Gallery. Esta pertencia à escola de artes e não tinha fins lucrativos. A próxima exibição seria a maior e mais importante já realizada pela pequena galeria.
Charlie voltou os olhos para as provas, satisfeita por tudo estar correndo bem. Fernando Licer morrera há vinte e cinco anos, com a idade de cinquenta. Passara a infância na Espanha, em uma cidade pequena e pobre. Aos treze anos fugira de casa e sumira por algum tempo, para reaparecer seis anos mais tarde na Inglaterra, onde permaneceria pelo resto da vida.
Havia passado algum tempo na escola de artes em que Charlie trabalhava, o que tornava a exposição particularmente interessante.
Entre as várias pessoas que haviam colaborado com a organização da exposição, a galeria devia agradecimentos especiais a Curtis Maxwell. Ele emprestara sete pinturas de Licer, todas pertencentes a sua coleção particular e, segundo o sr. Grant, de grande valor estimativo.
Desta forma, fora um ato de gentileza o empréstimo das obras, uma vez que sempre existiam riscos envolvidos com o transporte e manuseio. Talvez ele não tivesse cedido seus valiosos quadros se não fosse amigo pessoal do sr. Grant.
Charlie sabia pouco sobre a vida pessoal daquele homem, nunca o encontrara e falara com ele apenas uma vez, por telefone. Todos os contatos haviam sido realizados pelo sr. Grant.
Era claro, porém, que conhecia bem o nome Curtis Maxwell, mesmo antes de começar a trabalhar na College Gallery, há cerca de um ano. Ele possuía várias galerias de arte em Londres, com o escritório central na filial de Mayfair.
Charlie frequentava todas, embora não tivesse recursos para comprar qualquer obra exposta. Seu conhecimento de arte era profundo; seus gostos, caros e o salário, pequeno. Ganhava mais dinheiro em trabalhos temporários do que na galeria. Mesmo assim, gostava do que estava fazendo.
Havia um quadro de Licer, pertencente a Curtis Maxwell, que encantara Charlie à primeira vista. Chamava-se A Dama de Azul e retratava uma linda mulher loira de cerca de trinta e cinco anos. Ninguém sabia ao certo quem ela era. A pintura fora entregue com as outras seis logo que os papéis do seguro ficaram prontos, para que pudessem ser fotografadas para o catálogo. Charlie soltara uma exclamação de encantamento assim que a desencaixotara.
— É lindo!

