Enigmático, ele era uma tentadora ameaça!
Annie pôs a carta do noivo de lado sem vontade de abri-la.
Naquele momento sentia vontade de viver uma aventura, de se envolver em algum mistério...
Detestava imaginar-se casada com ele numa tediosa rotina. Christofer Fields, o bonito e atraente inquilino de sua casa em Inverness, veio-lhe à mente.
Sentiu o impulso de contrariar a principal recomendação dele ao alugar o imóvel: a de não ser perturbado. Annie pressentia perigo... mas estava ávida por correr riscos!
Capítulo Um
“E atenção! Uma boa alternativa para se divertir à noite é a região da ponte Golden Gate. Portanto, você que trabalha o dia todo, fique na cidade, relaxe e divirta-se ao máximo, ouvindo também as melhores músicas aqui, na KSFR”, berrava o rádio. “E agora a previsão do tempo para o fim de semana, neste finalzinho de primavera: a meteorologia prevê calor e dia ensolarado no interior, névoa na região costeira até por volta do meio-dia. São quatro e meia da tarde e os termômetros indicam dezessete graus aqui em San Francisco. Mas tudo bem! Com sol ou com chuva, KSFR garante vinte e quatro horas diárias de rock e diversão, aqui na sua, na nossa 104FM. E com vocês a segunda mais tocada do dia: Rembrandt and the Chainsaws...”
— Ora, cale a boca! — gritou Annie White, irritada, silenciando aquela histeria ao passar pelo rádio.
Sua companheira de quarto, Eve, equilibrava-se na janela da sala, tentando limpar o vidro do alto com um pano úmido. Annie ziguezagueou por entre o aspirador de pó, os baldes e tudo o mais para aproximar-se da amiga. Por fim se dirigiu a ela:
— Veja só isto! Imagine... Acabo de perder mil dólares!
— Pelo amor de Deus! Você quer me matar de susto?
Eve desceu da janela com a ajuda da outra e apoiou-se no parapeito, ainda trêmula. Olhava abismada para Annie, tentando ao mesmo tempo prender os cabelos com um lenço vermelho berrante onde se lia “98,8FM, a rádio do rock”, escrito em letras douradas.
Annie não pôde deixar de observar sua melhor amiga com uma pontinha de inveja. Afinal Eve era o tipo de mulher que mesmo usando um jeans velho, uma camisa surrada e aquele lenço escandaloso, seria sempre incrivelmente sedutora. Seus cabelos eram ruivos e longos, cheios e cacheados emoldurando com graça um rosto delicado de olhos verdes, lábios carnudos.
De resto, seu corpo era “apenas” escultural. Annie olhou para seu próprio corpo que, sem deixar de ser bonito, parecia até mesmo insignificante perto da exuberância da amiga. Passou os dedos pelos cabelos lisos e loiros, que lhe batiam nos ombros, lembrando as inúmeras vezes em que chegaram a confundi-la com uma garotinha de quinze anos. Não aceitava muito bem a ideia de que, aos vinte e seis anos, ainda não tivesse uma figura tão brilhante como a de Eve. A garota ruiva falou:
— Agora que meu coração voltou ao normal, Annie, o que era aquilo que você acenava para mim? Uma carta de Charlie?
— Não. É outra carta de C. Fields — informou, mostrando o papel. — Leia. Depois de finalmente ter decidido alugar a casa de tia Bertha, não tenho mais inquilino para ela.
Eve leu a carta e balançou a cabeça.
— Talvez seja melhor assim...
— Ora, vamos, Eve! — retrucou, pegando o copo de laranjada deixado sobre a lareira. Trouxe outro para Eve, encostou-se na parede e deixou o corpo escorregar até sentar-se no chão.
Eve continuou:
— Veja as coisas por esse lado, menina: primeiro você tem essa casa de veraneio lá em Inverness, que nunca foi alugada. Alguns meses depois recebe uma carta vinda sei lá de onde...
— De Connecticut — corrigiu Annie. — A carta veio de lá.
— Pois para mim dá no mesmo!

