sábado, 10 de março de 2018

Vestido de Noiva

ROMANCE CONTEMPORÂNEO
Todos estão a procura da noiva fugitiva que usa um vaporoso vestido branco sob uma forte nevasca.

Lenora Kingsley não estava apenas presa na nevasca, mas também se encontrava presa no vestido de noiva. E como não podia deixar de ser, ela chamava atenção em todos os lugares por onde passava. Até mesmo a do xerife bonitão da cidadezinha de Clover Creek.
Lenora entrou como um furacão em Clover Creek, a cidade de Malone Whittaker, e também em sua vida, com a mesma intensidade da tempestade que caía lá fora. Agora, por uma manobra do destino, ele e Lenora estavam isolados pela nevasca, e permaneceriam sozinhos até que tempo melhorasse. Apaixonado, Malone empenhava-se em convencê-la a ficar com ele. Mas, primeiro, precisaria ajudá-la a livrar-se daquele vestido!

Capítulo Um

Lenora Kingsley não podia acreditar no que acabara de ouvir. De acordo com o que fora noticiado no rádio do carro, uma nevasca estava prevista para as próximas horas, e seria a tempestade do século. Se tivesse ouvido os conselhos do pai, autoritário e arrogante, e do ex-noivo, decerto já teria metade da força policial atrás de si ao longo da costa. 
O pior de tudo era aquele vestido de noiva, que estava tolhendo-lhe os movimentos. Não importava o que fizesse, o zíper não se movia, nem para cima e nem para baixo. Encontrava-se literalmente presa dentro da luxuosa confecção de renda e cetim.
Com um gemido, desistiu da luta. Ergueu a saia longa e aproximou-se da pia do banheiro. Olhou-se no espelho. Seus lábios não tinham mais um só vestígio de batom, e seu rosto estava pálido e ainda molhado pelas lágrimas de humilhação. Os cabelos castanho-escuros eram um desastre, mas não se surpreendia, pensou, transtornada.
Lavou o rosto e secou-o com o papel-toalha. Aquele dia terrível estava longe de terminar. Olhou o relógio que trazia no pulso. Duas da tarde.
Passou creme hidratante nas faces para proteger a pele do vento frio que soprava lá fora. Rápido, passou um pouco de batom nos lábios. Sabia que não devia aceitar casar-se com alguém que não amava. Fora tolice permitir que seu pai a convencesse à união, só para descobrir que aquele casamento era uma farsa, um arranjo lucrativo entre ele e Geoffrey. 
Descobrira a farsa quinze minutos antes da cerimônia, quando, sem querer, dera com a reunião pré-nupcial entre futuro sogro e futuro genro.
Lenora suspirou, desgostosa, lembrando-se do choque que fora descobrir a traição daqueles dois. Certo, talvez devesse tê-los confrontado na hora. Começou a tirar a grinalda e o véu da cabeça. No entanto, com a igreja lotada, com pessoas aguardando o início da cerimônia, não viu como fazer isso. Tampouco desejava ser pressionada pelo pai, forçada a ouvir suas explicações, algo que, sem dúvida, os dois tinham na ponta da língua.
Não precisou ler o generoso acordo que Geoffrey assinara para saber que estava para cometer o maior erro de sua vida. Então, fez a única coisa que uma pessoa sensata teria feito: pediu um momento a sós e escreveu uma carta avisando a todos, inclusive a Geoffrey, que, por não concordar com os termos do casamento, estava indo embora.
Em seguida, saiu pela porta dos fundos da catedral de St. Paul e entrou no luxuoso carro que ganhara do pai, presente de casamento ao feliz casal.
Dali em diante, foi só pisar fundo. Lenora lembrava-se de estar chorando ao percorrer as familiares ruas de Pittsburgh. Suspirou. Era difícil dirigir dentro daquele vestido, longo e de saia volumosa. Erguera-a até a altura dos joelhos e espalhara o dispendioso tecido de renda sobre o assento ao lado do furgão zero quilometro.
Então, se acalmou o suficiente para concluir que não voltaria para a casa do pai, ou para qualquer outro lugar onde ele e Geoffrey pudessem encontrá-la.
Entrou na interestadual em direção ao sul. E, apesar dos olhares curiosos que recebia dos demais motoristas, se manteve firme na direção. Afinal, não era todos os dias que se via uma noiva na estrada dirigindo um furgão.
Deixou Pittsburgh para trás, passou pela fronteira do Estado da Pensilvânia e seguiu em frente, rumo a Virgínia Ocidental.
Viajava fazia uma hora quando começou a nevar, e foi aí que se deu conta de que precisaria parar em algum lugar para se abrigar da tempestade e trocar aquele vestido por algo mais quente.
Mas, antes disso, avançaria mais um pouco, rumo ao sul, decidiu, removendo o último grampo e, enfim, a grinalda e o véu.
Precisava distanciar-se de tudo o que a fazia lembrar-se de que estivera perto de ter a vida inteira arruinada. E, sobretudo, precisava livrar-se do vestido de noiva.

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